Por vezes me intriga a necessidade das pessoas em me pedirem que eu mude a característica natural do papel, que é?…Com o tempo o papel poderá desbotar, irá absorver alguma umidade, talvez até sujar!?…
Sim, faz parte da vida do papel, como nós. Vamos envelhecer, vamos enrugar, nosso corpo e a nossa mente vão se degradar.
O que é possível é trabalhar com um papel de maior qualidade, que diminuem essas consequências temporais, mas chegará um momento que será necessário fazer uma restauração.
Até para restaurar as peças, temos que manter a integridade do material. Se eu aplicar algum produto sobre o papel, ele vai absorver e com o tempo, se eu quiser fazer alguma troca de peça ou de fundo tudo fica mais difícil, porque esse produto já mudou a composição original do papel e qualquer restauração não chegará a um bom resultado.
Uma obra de arte em tinta a óleo também irá se desgastar com o tempo, precisará de cuidados, de iluminação correta, manutenção e restauração. Tudo é feito para acabar, pois tudo e todos estamos caminhando para o fim. Uma escultura pode cair e quebrar; uma roupa, por melhor qualidade e marca, pode rasgar e irá, com o tempo, acabar.
O significado da palavra efêmera é:
= BREVE, PASSAGEIRO, TEMPORÁRIO, TRANSITÓRIO ≠ DURADOURO, PERMANENTE.
Sendo assim, a vida é passageira e sabendo disso deveríamos viver intensamente cada instante. Em muitos projetos de arquitetos japoneses é importante a marca que o tempo dá às paredes das suas obras, o envelhecer da madeira, a umidade da chuva marcada no concreto.
Esses arquitetos se apropriam até da natureza do entorno do projeto como forma de mostrar que tudo está em constante mudança, pois o efêmero em Botânica, é um termo utilizado para designar as flores que murcham no mesmo dia em que desabrocham. Também se refere às plantas cujo ciclo de vida é muito curto e algumas florescem mais que uma vez ao ano, outras só florescem em anos de chuva intensa. A mudança das estações do ano e suas diferentes características estampadas na paisagem.
Não estou dizendo que devemos gostar da nossa obra em papel com alguma ruga de umidade ou marca de mão, mas o que devemos entender é que isso faz parte da vida da obra, de qualquer obra, de qualquer produção humana ou da natureza.
A natureza é efêmera, pois o mesmo rio que eu entrar hoje, não será o mesmo rio quando eu entrar daqui a um ano. A água não será a mesma, as areias foram levadas com a correnteza. Esse é o maior ensinamento sobre tudo e todas as coisas.
Uma obra de arte não é somente o consumo, comprar aquele determinado quadro porque ele combina com a sua decoração, mas é um investimento de afeto. Não é valor ou o tempo de duração, e sim o que te toca interiormente.
Devo reconhecer que minhas criações com o papel nascem desse desconforto em perder, a dor que traz o degradar e o acabar, e isso realmente me entristece, mas com as minhas obras eu ressignifico tudo isso, as lembranças de momentos pueris se eternizam nesses produtos feitos a mão e suas existências me fazem entender e aceitar a vida e o tempo como eles são.


O degradar tem sua tristeza e sua beleza. Foto 1: Casa do sítio em que morei na infância no interior de São Paulo./ Foto 2: Como está a casa atualmente.
Olhar essas duas fotos é saber que a vida melhorou com o tempo, mas é triste ver no que o passado se transformou. Há muito tempo meu avô vendeu esse sítio, e hoje, quando eu olho para essa casa, ela parece tão pequena diante do meu olhar de criança. Na minha lembrança, tudo era tão grande, espaçoso e cheio de liberdade.
Não existe mais as árvores, pois o que importa é somente o lucro em arrendar as terras. Não existe cuidado nem restauração. Só o fim de tudo que existiu no passado. Isso se chama vida, o que passou, ficou para trás! Seguimos em frente sempre, mas não devemos esquecer de onde viemos.
Nossa essência deve ser preservada, e eu aplico esse mesmo conceito para o papel e para minha arte: A essência nunca deve ser alterada, pois se for, como poderemos restaurar?
Vou citar uma outra referência que acredito expressar o que eu estou querendo debater, vou falar um pouco sobre o Kintsugi, a arte japonesa de valorizar o velho.
Kintsugi ou ”emenda de ouro”, também conhecido como Kintsukuroi (reparo com ouro) é reparar uma cerâmica quebrada com laca espanada ou misturada com pó de ouro, prata ou platina, um método semelhante à técnica maki-e.

Como uma filosofia, kintsugi pode ter semelhanças com a filosofia japonesa de wabi-sabi, a aceitação do imperfeito ou defeituoso. A estética japonesa valoriza as marcas de desgaste pelo uso de um objeto. Isso pode ser visto como uma razão para manter um objeto mesmo depois de ter quebrado, destacando as rachaduras e reparos como simplesmente um evento na vida do objeto, em vez de permitir que o seu serviço termine no momento de seu dano ou ruptura.
Kintsugi pode se relacionar com a filosofia japonesa de “não importância” que engloba os conceitos de não-apego, aceitação da mudança e destino como aspectos da vida humana.
O Wabi-sabi representa uma abrangente visão de mundo, uma abordagem estética centrada na aceitação da transitoriedade e imperfeição. Esta concepção estética é muitas vezes descrita como a do belo que é “imperfeito, impermanente e incompleto”. Uma idealização artística desenvolvida por volta do século XV no Japão, durante o período Muromachi, com bases nos ideais do zen budismo.
As características estéticas do wabi-sabi incluem:
- Assimetria;
- Aspereza (rugosidade ou irregularidade);
- Simplicidade;
- Economia;
- Austeridade;
- Modéstia;
- Intimidade;
- Valorização da integridade ingênua de objetos e processos naturais.
Portanto, para que mudar a composição original do papel? Porque essa incessante busca pela perfeição se a beleza também pode morar nos pequenos detalhes imperfeitos. Isso é a verdadeira arte e seus mistérios que representam a vida.
Fonte: https://arteref.com/historia/kintsugi-entenda-a-arte-japonesa-de-valorizar-o-velho/





